terça-feira, 23 de setembro de 2008

Uma tarde no café

O toque furtivo por baixo da mesa indica o romance ilícito do casal que toma um chopp na mesa ao lado. A necessidade urgente do desejo busca desesperadamente romper os limites sociais do lugar em que se encontram e é apaziguada com um roçar de pernas, uma carícia de mãos.
Parece pouco, mas não é. O desejo rompe não só os limites sociais, mas também a noção de saciedade que casais oficiais têm.
Mais do que o sexo, mais do que o beijo, nesse momento todas as zonas erógenas se encontram num único ponto. Pode ser o joelho, o ombro, ou a ponta dos dedos.
Os pretensos (supostos?) amantes tentam aparentar uma calma dissimulada enquanto seu interior esconde uma erupção, Não sentem fome, não percebem as horas, apenas se descobrem. (- você trabalha só nesse lugar? – não. Também leciono em Campo Grande; - Aí eu disse pra ele, onde estão os poemas que ele escreveu? bzbzbzzz)
Sou uma intrusa, eu meu caderno, minha água e minha caixa de lenços de papel. Percebo-os, mas estão tão embevecidos que quase não me notam...
O assunto se esvai, toques, olhares, pontas dos dedos nos lábios trêmulos. A vontade do beijo e do abraço torna-se incontrolável, desajeitados e intensos, eles se tocam, se beijam, se abraçam meio de lado, para em seguida voltarem à posição original, coração aos pulos, um gole no chopp e sussurros...
Não pretendo continuar aqui para ver o desfecho desse interlúdio amoroso, mas posso prevê-lo: uma despedida formal na porta do Café, ou quem sabe na estação do metrô e voltam ambos para suas vidas, iluminados pela chama ardente da paixão podem continuar por mais um tempo agüentando as trevas da rotina sem amor.
Uma tarde, uma pausa e a vida que chama de volta.

(Botafogo-RJ, 30/08/06)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

De volta ao sofá

Cansada do dia exaustivo que teve, Joana jogou-se no sofá. Quanto tempo ainda teria até suas forças exaurirem-se? Havia muito que fazer, logo seu marido e as crianças notariam sua chegada, mas não o seu cansaço, e juntos se uniriam para sugar o pouco que ainda lhe restava.
Era quarta-feira. Meio de semana é o fim!Como esquecer que ainda ontem a semana começava e que seu fim, ainda que pouco, tardava? Gostava de rimas, quanto mais pobres, melhores...
No auge do desalento que a tomava, uma idéia saltou-lhe a mente: não foi no sofá que aquele tatu, daquela história da sua infância, encontrou uma saída? Sentindo um fio de ânimo avivar-lhe as forças, olhou com cuidado por entre as estampas para ver se não estava ali a passagem secreta para o outro lado.
Não demorou muito e os ruídos do interior da casa aumentaram num crescente, revelando a proximidade dos seus.
A porta se abriu e surpreso o pai perguntou às filhas: Mas sua mãe não tinha chegado?


No sofá estampado, nenhum sinal do instante passado.


(by Yani)

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Sem inspiração pra escrever...

Bebo na fonte dos poetas, compositores e cantoras q me inspiram...


Dor Elegante

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Como se chegando atrasado
Andasse mais adiante
Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nessa dor
Ela é tudo que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra

Ela é tudo que me sobra
Viver vai ser a nossa última obra

(By Itamar Assumpção & Paulo Leminski - na voz de Zélia Duncan)

domingo, 7 de setembro de 2008

Domingo

Experimento no domingo
a sensação do nada,
do vazio da programação da TV,
da urgência daquilo q está atrasado e q só conta com o domigo pra ser colocado em dia,
a péssima nostalgia da casa materna,
o tédio, o sono, a preguiça,
o vazio de um domingo sem missa, (hum...tão diferente da minha adolescência...)

porém experimento também a sensação

de que não quero (e não posso...)preencher esse vazio,

não fosse assim, não seria domingo.



Amanhã a vida se enche novamente...


(by Yani)

sábado, 6 de setembro de 2008

Quem sou eu?

Talvez eu seja
O sonho de mim mesma.
Criatura-ninguém
Espelhismo de outra
Tão em sigilo e extrema
Tão sem medida
Densa e clandestina

Que a bem da vida
A carne se faz sombra.

Talvez eu seja tu mesmo
Tua soberba e afronta.
E o retrato
De muitas inalcançáveis
Coisas mortas.

Talvez não seja.
E ínfima, tangente
Aspire indefinida
Um infinito de sonhos
E de vidas.

By Hilda Hilst (XLVI – Cantares)

Amigos reais em meio virtual: